sexta-feira, 31 de julho de 2020
domingo, 19 de julho de 2020
AS TEMPESTADES
AS
TEMPESTADES
D. Arbués
D. Arbués
Estive pensando e tentando entender um
certo fascínio que tenho pelas tempestades. Talvez isso tenha vindo das ocasiões de
chuva forte, quando meu pai ou minha mãe mandava que entrássemos pra debaixo da
grande mesa de refeições da família, que virava algo como um bunker, no meio da
enorme sala de piso de tijolos assentados no centro da casa. Como éramos em
muitos irmãos, essas ocasiões me davam uma sensação muito mais de cumplicidade,
excitação e diversão do que de medo. Os clarões de raios e barulhos de trovões
se misturavam às conversas que acabávamos inventando embaixo da
mesa.
Talvez isso tenha vindo das brincadeiras de
soltar barquinhos de papel na enxurrada com os outros meninos quando a chuva
terminava. Lembro-me de irmos seguindo os barquinhos, dentro da enxurrada, com
sapatos de borracha que esguichavam a água turva, amarelada, pelos furinhos que
tinham na parte de cima dos dedos. Era como se fosse um chuveiro pra cima. Divertido,
mas deixava um odor terrível quando secava.
Talvez isso venha também dos banhos
gelados que meu pai deixava que tomássemos na água da própria chuva, que ficava
por um bom tempo escorrendo generosa na bica do telhado de casa, no finzinho de
cada tormenta, tão logo cessassem os raios.
A verdade é que, mais à frente, cheguei
à conclusão de que a tempestade era uma senhora sisuda, mas justa, que igualava
a todas as famílias, pobres, remediadas ou ricas, caindo sobre suas casas com a
mesma intensidade, moderação ou fúria, sem exceção. Ela, volta e meia, vem
lembrar-nos claramente da nossa pequeneza humana, diante do poder da natureza e
do universo. Traz sinais e mensagens das forças e energias superiores.
Por isso também, quero crer que esse certo
fascínio nasceu da ingenuidade de um menino de família comum, mas que foi
ensinado a conviver com as tempestades e a ver a natureza como aliada, desde
que respeitada ou procurada na forma e momento certos.
quarta-feira, 27 de maio de 2020
POR UM QUIABO
D. Arbués
De certa feita, uma amiga quis me
servir um quiabo à mesa, o que eu prontamente agradeci mas recusei. Pouco depois,
constatei a expressão de prazer com que ela saboreava aquele mesmo alimento que
eu rejeitara. Foi então que comecei a pensar que desse mundo não se leva nada e
que uma das riquezas da vida é o prazer que se consegue ter com todos os nossos
sentidos, inclusive o gustativo, o paladar.
Como tínhamos muita afinidade, concluí
que ela gostava basicamente das mesmas coisas que eu gostava, e ainda tinha a
mais o gosto pelo quiabo. Portanto, podia mesmo ser mais rica do que eu na vida
por um quiabo!
A partir daí me esforcei para comer e
gostar do máximo de frutas, legumes ou verduras que ia conhecendo. E, naquele
dia, descobri que o problema de eu não gostar de quiabo era muito mais meu do
que dele. Ou melhor, totalmente meu.
sexta-feira, 8 de maio de 2020
quinta-feira, 7 de maio de 2020
CULTURA E APOIO CULTURAL
PENSAR,
PENSAR – “Fim da Lei Rouanet causaria apagão em Orquestras, Museus e Musicais
no país” – Logo cedo me deparei com essa manchete num site e, me veio a imagem
de muitas pessoas reagindo com um “mas quem precisa mesmo dessas coisas?!”.
Sim, em função de discussões recentes e envolvimento político, muita gente
parece que está voltando a entender cultura como coisa supérflua. Mas, será
que, se pensarmos um pouco, isso procede, mesmo? Eu diria: Meu amigo, amiga, vamos imaginar a vida de cada um de nós sem a cultura?
É simples: Vamos imaginar como seria nossa vida tirando, para começar, as
canções de ninar, estórias infantis como Os 3 Porquinhos, Pinóquio, Chapeuzinho
etc. Tiremos também as brincadeiras como amarelinha, bolas, bonecas, além do
folclore e causos contados da região, lendas, e dos próprios causos e tradições
de cada família. Ah, tiremos os gibis, revistas, traquinagens, fantasias,
livros, idas a cinemas, circos, teatros, gastronomia... tiremos as tantas
novelas, os programas de rádio ou TV, além de bailes, festas e aquelas
tardinhas ou noites curtindo música ao vivo ou eletrônica em barzinhos ou
boates. Conclusão: tirando a cultura de nossa vida, certamente sobraria alguém
trabalhando horas por dia sim, mas, sem senso de humor, sem senso crítico e
robotizado, pois quase tudo que vivemos antes e depois do trabalho envolve
cultura, tira o estresse e dá melhor sentido à nossa própria vida.
Agora, vamos
voltar à Lei Rouanet. É preciso lembrar que a lei é muito maior do que esses
casos de favorecimentos a alguns artistas, que devem mesmo ser condenados com
veemência. A Rouanet atua no apoio a muitos dos itens elencados acima, com
livros, produções de programas, oficinas formadoras, registro e resgates da
história, grupos culturais como alguns dos que visitam doentes em hospitais
etc. Se lembrarmos que muitas das enfermidades modernas são psicossomáticas,
decorrem da soma de fatores psicológicos e de estresse, por exemplo, temos que
admitir que a vida recheada com boa cultura evita muito desses males e seus
enormes gastos pessoais ou nacionais. Portanto, é muito melhor que se adeque,
fiscalize com rigor a aplicação da Lei e sejam cortadas as mamatas, do que
acabar com ela. Finalmente, é preciso entender a lógica, o processo de longos
anos que deram sentido e embasaram o surgimento das Leis de incentivo à cultura
pois, só assim, poderemos mensurar o tamanho do prejuízo que a extinção delas
traria às pessoas e ao país.
Assinar:
Postagens (Atom)






