sexta-feira, 9 de julho de 2021

A DINASTIA DOS GALOS

 

A DINASTIA DOS GALOS

                                                          Divino Arbués

E uma amiga falou - Charlie é um nome charmoso para um galo. Admiro muito o carinho que você tem no tratamento dos seus animais.

- É um nome simpático - ponderei. Mas não sei se você manterá a mesma impressão se souber da história toda. Charlie, na verdade, é um nick name de Charlatão, que é a graça original dele. Vou lhe contar...

Confesso que nutro uma certa inveja dos galos, esses indivíduos que já nascem no lazer e de bermudas! Aconteceu que comprei uma casa na encosta da serra e, a partir daí, passei sempre a trazer da chácara um galo e três galinhas para exterminarem insetos ou animais que de lá conseguissem chegar ao meu quintal.   

Essa inveja light começou com a convivência com o primeiro deles, que abriu as portas para os que o sucederam em uma dinastia que até hoje persiste sob minhas expensas.

Sultão – Eu o olhava num dia em que me encontrava mal, sem dinheiro e brigado com a namorada. Pensava eu: ralei uns 10 anos pra comprar a chácara e mais outros tantos para conseguir comprar essa casa com quintal. E esse galo reina absoluto nesse terreiro, pois até das pequenas disputas com outros galos da chácara ele estava livre. Quisera eu que alguém fizesse por mim o que eu havia feito por ele! Era a personificação de um sultão com seu harém. E passei a chamá-lo por esse nome!

Cantãouum – Era, sem dúvida um tenor. Cantava impressionantemente o tempo todo, incluindo edições extraordinárias antes da meia noite. Coordenava os quarteirões à sua volta, fazendo os outros galos cantarem também. E quando não estava cantando, entrava em microfonia, emitindo sons estranhos. Daí lhe coloquei esse nome!

Entrujão – Entrava no alpendre, se socava em locas, na areia tomando banho. Pulou o muro, entrou no quintal do vizinho e, lá, sobreviveu a uma bocada de um cachorro, embora tenha ficado sem as penas do rabo. O vizinho, solidário, me ligou para resgatá-lo.  Algum tempo depois terminou sua epopeia quando entrou na piscina de casa sem salva vidas

Rodadão - As galinhas se faziam de chocas e ele ficava desorientado, vagando pelo terreiro. Parece que foi o que menos usufruiu do fato de poder ser poligâmico dentro da lei.

Galão (vem de galã, mesmo) - Empertigado e convencido, aproximava-se das galinhas mais para mostrar que o seu porte dava o dobro do delas.  O apogeu de sua vaidade foi desfilar numa panela em data comemorativa.

E, depois de muitos outros, chegamos ao nosso dinasta atual, Charlatão. Esse, sem dúvida, o mais carudo dos galos. Chama as galinhas escandalosamente, se vangloriando, como se  ele próprio houvesse batalhado muito e conseguido o milho pra elas. Ultimamente, chega a antecipar o alarde quando me vê e quer me pressionar psicologicamente a jogar-lhe a ração. Acintosamente, camufla o fato de que fui eu que trabalhei e gastei indo comprar tudo no comércio. Além disso, cobra-lhes muito caro por uma benesse que, em verdade, não lhes fez. Pensando bem, o nick name Charlie é mais pra ornar com sua gabolice e desfaçatez. É carinho que não deixa de ter uma grande pitada de ironia!!!

domingo, 2 de agosto de 2020

BEATLES - A ARTE EVOLUI


      BEATLES – A ARTE EVOLUI
                                         D. Arbués 
 
         Ainda aos 4 anos, fui morar em Anápolis, levado pela minha família. Menino de cidade pequena, pude conhecer na chamada Manchester goiana, muitas coisas totalmente novas pra mim, como asfalto, charretes, elevadores, programas locais de rádios e TVs e, neles, músicas de estilos que eu nem conhecia. Dentre muitos, como Elvis Presley, Trini Lopez e mais sucessos dos anos 60, o som das músicas dos Beatles foi o que mais me encantou. Lembro-me de ficar deslumbrado com a energia de Twist and Shout, She loves you, I Want to hold your hand e, principalmente, com o som de guitarra de Words of Love, que me fazia parar para ficar ouvindo em frente a casas ou lojas aonde estivesse tocando.
         Seguindo minha crescente paixão por música, ainda conheci parte de movimentos como o da jovem guarda, tropicalismo, anos de ouro da música italiana, surgimento de novos grupos e cantores em todas as partes do mundo, mas sempre seguindo o meu grupo preferido que virou o fenômeno mundial The Beatles. Enquanto eu aprendia os primeiros acordes de violão, me impressionou muito a melodia inovadora de Help, além dos contracantos e arranjos das vozes que começavam a buscar novas estruturas melódicas (embora eu só viesse a poder analisar assim mais tarde). Daí por diante, o quarteto seguiu uma carreira fantasticamente rica, conseguindo nos levar por caminhos criativos, experimentais, que abarcaram do popular ao clássico, com sucesso arrebatador nos cinco continentes. Para mim, justamente aí mora o mérito dos Beatles, não se acomodando, tendo sede de conhecimento e, inclusive, mantendo suas procuras individuais que acabaram por separá-los.
        Ouvindo toda a obra dos Beatles, eu, particularmente, consigo conceber sementes de muito do que veio a acontecer depois no mundo musical. Sementes de Pink Floyd, Queen, Bread, Supertramp, Nazareth e tantos outros grupos notáveis, com todo o respeito pois, pra mim, a música é “reviver o feito, criando” e Beatles criaram e caminharam muito até chegar em Eleanor Rigby, Yesterday, Come Together, Because, Across the Universe etc. Vocês já tentaram imaginar os sucessos que eles conseguiram emplacar depois, em suas carreiras individuais, recebendo a participação de todos em vocais e arranjos? Já imaginaram Mother, Happy Christmas, Imagine, Stand by me, de Lennon, arranjadas e gravadas pelos Beatles? My Love, Mull of Kintyre, Another Day, Live and Let Die, de Paul? My Sweet Lord, Give me Love, de Harrison?!...
         Pra mim, arte é isso que eles fizeram, não se contentando com o sucesso fácil de repetições de fórmulas. Ao invés disso, foram honestos na procura de caminhos, concepções, inovações, ousadias, microfonias, efeitos e experimentos. Hoje em dia, inclusive no Brasil, o que mais se vê são cantores que se dizem autores de 500 músicas quando, na verdade, 480 delas são cópia de outras, deles próprios ou não. É esse um dos principais fatores que fazem a decadência criativa e intelectual da arte e, consequentemente, de pessoas a quem ela é imposta, que a consome por ser a única opção que lhes alcança os ouvidos dentro da própria casa ou trabalho.
         E é por isso que, tanto tempo depois, continuo vibrando com a história dos 4 rapazes de Liverpool. Por que a arte e a ciência são os faróis que guiam e conquistam a evolução da humanidade. A arte evolui. Beatles foram arte, caminharam.