(D. Arbués)
Às vezes me pego pensando sobre como o tempo atua na
percepção das coisas!
Me lembrei hoje da figura do palhaço, tão popular e inocente
em tempos nem tão distantes.
Hoje, vejo que o palhaço era divertido mas, também, um grande
folgado, como atribui um dito popular ao seu colarinho. Vejam bem: ele saía
pela rua fazendo barulho, falando o que bem entendesse. Começava light com um
“Hoje tem marmelada? Hoje tem goiabada? Porém, pouco depois, já era folgado ao
cantar na porta das casas “E o palhaço o que é? E a molecada respondia como ele
os havia treinado: É ladrão de mulher”. E, com a própria mulher, não era
elegante “A mulher do palhaço é um colosso – Caiu da cama, quebrou o pescoço”.
Voltava a ser light em “O raio, o sol suspende a lua - Olha o palhaço no meio
da rua”. Mas, pouco depois já folgava induzindo a criançada a um canto
inocente, mas racista: “Olê, Olê bambu... Filho de nêgo é urubu!... E por aí ia
desfrutando de uma imunidade impensável nos tempos atuais.
Eu, tímido, não era de participar disso. Porém, em uma certa
ocasião, em Torixoréu, chamado por um colega e vizinho, me juntei aos meninos
que iam atrás do palhaço, respondendo em algazarra aos seus disparates para
ganhar a entrada gratuita no circo. Ao final da passeata, foi feita a fila de
meninos para receber a marca que lhes daria o direito à entrada franca. E lá
veio o palhaço aprontando! Para minha surpresa, constatei que, pelo que meu
colega ostentava na testa, o palhaço havia escrito, também na minha, um número 24
com um tipo de lápis preto, algo assim. Será que ele não podia ficar na parte
engraçada sem ser folgado? Ele bem sabia
de um preconceito que já trazíamos dos adultos com relação ao número 24!
O fato é que, antes de chegar em casa, dei um jeito de
esfregar a testa com um papel de pão que encontrei em alguma calçada, até tirar
o sinal e ficar apenas com a vermelhidão dos esfregões. E, logicamente, não fui
ao circo naquela noite.
No outro dia, não fui mais na comitiva de crianças seguindo
o palhaço. Mas, no fim daquela tarde, vi na testa de um outro menino da minha rua
que, naquele dia, a marca para entrar grátis era uma pinta feita com uma pomada
branca ou algo assim.
Não tive dúvida: Achei a lata de pomada Minâncora de minha
vó e, sem que ninguém visse, me marquei diante de um espelho. Naquela noite, fui
folgado como o palhaço e entrei de graça, sem tê-lo seguido. Afinal, eu tinha
uma entrada de crédito e palhaçada trocada não dói!
Hoje, vejo assim. Naquela noite, só desfrutei e ri muito com
as palhaçadas e outras atrações.